segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O USO MINISTERIAL DO TEATRO NA IGREJA

Por Jolsemar dos Reis Araújo

****Texto postado originalmente nos extintos blogs da Escola Ministerial de Artes e do MAVIN do Projeto Vida Nova de Irajá(há um atual http://mavinpvni.wordpress.com/) com ligeiras adaptações****


A palavra 'teatro' vem do grego (theatron) e designa o lugar onde se assiste a um espetáculo, seus espectadores ou o próprio espetáculo. A palavra é etimologicamente formada por théa 'espetáculo, vista, visão' mais o sufixo -tron 'instrumento', significando literalmente 'meio pelo qual se realiza um espetáculo'. Mais que o local, 'teatro' designa a arte do ator e da atriz, a dramatização, a representação e os meios e recursos humanos para a concretização do espetáculo.


Os historiadores da arte assinalam que desde seus primórdios o ser humano usou da dramatização para expressar suas crenças e valores. Entendendo que força e determinação não eram suficientes para assegurar sua sobrevivência, os povos primitivos usavam danças imitativas visando angariar o favor e proteção de Deus ou dos supostos deuses que controlavam todos os fatos necessários à sua sobrevivência (fertilidade, família, êxito nas batalhas, etc). Sendo assim, o teatro em suas origens possuía um caráter religioso, espiritual. Esse teatro primitivo constituía-se de danças dramáticas coletivas que tratavam das várias questões da vida. Ao lado, pintura rupestre em Lérida, Espanha, representando uma dança ritual primitiva. Com o tempo os humanos começam a desenvolver suas crenças e filosofias bem como sua tecnologia e arte. Sem a revelação do Deus bíblico ou dela prescindindo, os homens elaboram mitos, sagas cósmicas politeístas, que visavam explicar a origem, a manutenção e o sentido da vida e passam a dramatizar esses mitos inicialmente através das danças miméticas, isto é, compostas por mímica e música.

Em civilizações mais desenvolvidas, como a egípcia e as mesopotâmicas, os pequenos ritos tornaram-se grandes rituais formalizados. Esses rituais eram a história do mito em ação, isto é, em movimento. Eles propagavam as tradições e serviam como entretenimento. Na Grécia, a partir da evolução da dramatização dos mitos, surge o embrião d teatro moderno. Inicialmente havia o ditirambo, um tipo de procissão informal que servia para homenagear o deus Dionísio (deus do vinho). Ao lado, representação de Dionísio. O ditirambo evoluiu dando origem a um coro onde os componentes cantavam, dançavam e contavam os mitos relativos a Dionísio. A grande inovação deu-se quando se criou o diálogo entre os componentes do coro. Instala-se desta forma a ação na narrativa dos mitos dando origem aos primeiros textos teatrais. Inicialmente faziam-se as representações nas ruas, passando-se para um lugar próprio. E assim surgiram os primeiros teatros. Abaixo, ruínas do teatro de Epidauro, cidade grega.

Se o teatro tem suas origens na dramatização de mitos pagãos o que ele então tem a ver coma atual prática das igrejas utilizarem o teatro como veículo de edificação e evangelização?

Nas Sagradas Escrituras vamos encontrar a palavra 'teatro' em duas ocasiões (Atos 19.29,31) significando o local de reunião de uma assembleia, porém na Bíblia não vamos encontrar o teatro no sentido de arte cênica apresentada em local próprio como espetáculo.

No Antigo Testamento, as palavras traduzidas por 'espetáculo' (mar’eh, ro’iy) significam visão, aparência, espetáculo. Há ainda a palavra zeva'ah geralmente traduzida por espetáculo horrendo. Estas palavras estão associadas ao juízo divino: quando Deus trouxer seu juízo será um espetáculo, isto é, algo notório, que servirá de símbolo, exemplo e reflexão (Deuteronômio 28.67; Jeremias 15.4; 29.18; 34.17; Naum 3.6). 

No Novo Testamento encontramos a palavra theatron (1Coríntios 4.9) e outras dela derivadas ou correlatas significando 'espetáculo' no sentido de que algo ou alguém está sendo observado por várias pessoas e nelas causa algum efeito (Lucas 23.48; Hebreus 10.33; 12.21). Nos dias de Jesus havia um teatro em Jerusalém ( representação ao lado) construído por ordem do Rei Herodes, o Grande (73 – 4 a.C.), porém para agradar aos romanos. Embora os antigos judeus convivessem com culturas que patrocinavam as artes teatrais como a grega e a romana e em Jerusalém houvesse um teatro, eles não aderiram ou incorporaram à sua liturgia e cultura esse tipo expressão artística principalmente por que muitas das peças teatrais da antiguidade eram repletas de paganismo e sensualidade. Pelo mesmo motivo os primeiros cristãos rejeitaram o teatro até que na Idade Média passaram a utilizá-lo como forma de catequese. No transcurso dos séculos vários grupos cristãos foram utilizarando as artes cênicas como veículo de propagação da fé. Devemos também observar que o fato de algo ser um elemento cultural não-judaico não impede deste ser usado a serviço de Deus. Não é sem razão que Paulo usa a poesia pagã grega para evangelizar (Atos 17.28) e exortar (Tito 1.12,13).

Não obstante a origem pagã, a essência do teatro, isto é, a dramatização, é encontrada na Bíblia através da liturgia sacerdotal e nos atos simbólicos dos profetas, inclusive os de Jesus. Não bastou a Deus dizer a Abraão que ele seria pai de uma multidão de pessoas. Deus o fez sair da tenda e ver as estrelas e disse: “Olha para os céus e conta as estrelas, se é que o podes. E lhe disse: Será assim a tua posteridade”(Gênesis 15.5). Deus usou sua arte, as estrelas, para mostrar a Abraão o que Ele pretendia realizar. Não foram suficientes as palavras. Deus quis que Abraão visse. Essa é a essência do teatro na sua origem etimológica: 'ver,' 'algo para ser visto'. O teatro como espetáculo pode ter suas raízes nos cultos pagãos; mas o uso de recursos visuais, de imagens inspiradoras, a dramatização da verdade espiritual, tem sua origem em Deus.
Imagem do telescópio espacial Hubble da NASA:
Deus usou a visão do céu estrelado para inspirar a fé de Abraão

A Liturgia Sacerdotal como Dramatização de Verdades Espirituais
O livro de Levítico registra vários tipos de rituais que os sacerdotes e os ofertantes praticavam na Antiga Aliança. Diz o Novo Testamento que esses rituais eram sombras, símbolos do mundo espiritual e de coisas que estavam para vir (Colossenses 2.17; Hebreus 8.5). Isto é: eles dramatizavam realidades espirituais. Não bastavam aos homens e mulheres da Antiga Aliança pedir verbalmente perdão a Deus por seus pecados ainda que com sinceridade. Esse pedido de perdão e aceitação era dramatizado através dos sacrifícios e da mediação sacerdotal que eram símbolos de realidades espirituais bem como de acontecimentos vindouros. As realidades espirituais do perdão, expiação, redenção, da mediação eram vivenciadas e dramatizadas pelos ritos levíticos. Abaixo, liturgia sacrificial no templo de Jerusalém (séc. I). Por exemplo, segundo estudiosos, a oferta pacífica movida perante o Senhor (Levítico 7.29-34) tinha o seguinte ritual: a porção do sacrifício destinada ao sacerdote era primeiramente colocada nas mãos do ofertante. Então o sacerdote colocava suas mãos embaixo das mãos do ofertante e as movia com a oferta para frente e para trás e para cima e para baixo. O que foi feito? Um sinal de cruz. À luz do Novo Testamento, esse rito representava ou dramatizava o vindouro sacrifício de Cristo.
A liturgia do Antigo Testamento é teatro, é dramatização de realidades espirituais.


Os Atos Proféticos
Nos Profetas vamos encontrar verdadeiras interpretações teatrais da palavra divina. Era comum entre os profetas transmitir uma mensagem mediante dramatização, que seria um recurso didático para prender a atenção dos ouvintes. Os eventos simbolizados eram uma declaração de Deus, através de seus mensageiros, daquilo que ele estava prestes a fazer ou de alguma realidade espiritual. Oséias teve que representar radicalmente o estado de infidelidade de Israel para com Deus casando-se com uma mulher adúltera (Oséias 1-3).

Exemplos de dramatizações ou ações simbólicas das mensagens divinas pelos: o discípulo dos profetas (1Reis 20.35-43), Aías de Silo (1Reis 11,29s), Isaías (Isaías 20.2-4), Ágabo (Atos 21.10-11). As ações de Jeremias e Ezequiel têm sido claramente identificadas como pantomima e teatro de rua por artistas (Rory Noland) e teólogos (Silvia Schroer e Thomas Staubli). Vejam-se o grande número de ações simbólicas e recursos visuais que eles representaram para transmitir sua mensagem profética:

Jeremias :
1. Cinto de linho escondido no Eufrates (13.1-11);
2. O oleiro e o barro (18.1-8);
3. A botija quebrada (19.1-13) ;
4. Um jugo no pescoço (27.1-8);
5. Compra do campo do parente (32.6-15);
6. A obediência dos recabitas (35.1-19);
7. As pedras escondidas (43.8-13);
8. Livro jogado no Eufrates (51.63,64).


James Tissot: The Prophet Jeremiah
O profeta Jeremias por James Tissot (1888)

Ezequiel:
1. Ele representou o cerco de Jerusalém com um tijolo (4.1-3);
2. A fome no cativeiro cozendo pão com excrementos (4.9-17);
3. A destruição pela espada cortando seus cabelos com navalha e os atirando ao vento (5.1-7);
4. A ida do povo ao cativeiro fazendo um buraco na parede para partir com suas mobílias como um deportado.(12.1-11);
5. Com uma espada afiada e polida retratou o juízo iminente sobre Jerusalém (21.1-17);
6. A vitória da Babilônia é retratada pela espada de Nabucodonosor (21.18-23);
7. A queda de Jerusalém é simbolizada pela morte da esposa (24.15-27);
8. A união de Judá e Israel pela escrita do nome de Judá e de Israel em dois bastões (37.15-28).


painting: The Vision of Ezekiel, Raphael, 1518
A Visão de Ezequiel por Rafael (1518)

Não se pode deixar de mencionar o próprio Jesus. As parábolas evocam cenas do dia a dia e a visualização delas na mente à medida que são lidas ou ouvidas. Embora não encenadas, são visualizadas na imaginação. Para ilustrar a esterilidade de uma falsa aparência ele amaldiçoa a figueira sem frutos que seca imediatamente tornando-se um símbolo vívido (Mateus 21.19-21). 

Há que se falar também do lava-pés: para mostrar como devemos servir uns aos outros Jesus se caracteriza como um escravo e faz um serviço que só escravos faziam (João 13.1-17). Não bastou a Jesus falar; ele teve que teatralizar seu ensino.

Muitos gestos simbólicos são registrados na Bíblia: mãos erguidas (Êxodo 17.8-16), virar o rosto em direção ao objeto da profecia (Ezequiel 6.1-3), marchar em círculos (Josué 6.1-20), dentre outros, concluindo-se assim a Bíblia registra que a mensagem divina e as realidades espirituais foram dramatizadas de várias formas até hoje usadas. 

Em suma, existe uma base bíblica para o uso do teatro na proclamação da Palavra de Deus.


Ministério de Teatro na Igreja
O Novo Testamento tem cinco listas de dons e ministérios (1Coríntios 12.8-10,28-30; Romanos 12.6-8; Efésios 4.11; 1Pedro 4.10,11). Muitos dons e ministérios são repetidos, outros citados uma só vez, outros não têm títulos sendo antes ações: exortar, contribuir, exercer misericórdia ou simplesmente servir como afirma o texto de 1Pedro 4.11. Disso se conclui que o Novo Testamento não tem uma lista definitiva e limitada do número de ministérios que deve haver na igreja de acordo com sua necessidade. O diaconato não surgiu de uma revelação divina; houve a necessidade de se levantar pessoas para essa função (Atos 6.1-7). Tanto é assim que todas as denominações têm ministérios ou departamentos que não são citados no Novo Testamento: Ministério de Música, Tesouraria, Ministério Infantil, Sociedades Femininas, Masculinas, Círculo de Oração, Mocidade, etc. Quantas são as necessidades da igreja tantos são seus departamentos ou ministérios. E todos terão base bíblica já que a essência de um ministério é um serviço prestado a Deus e ao próximo. 

A dramatização, como qualquer arte, é um dom divino. "Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança" (Tg 1.17). Portanto podemos utilizar esse dom a serviço do Evangelho: "Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus" (1 Pedro 4.10). Em síntese, o fato do Novo Testamento não falar de um ministério de artes não impede que haja tal ministério, tal serviço, na igreja. O fato de não haver menção no Novo Testamento ao teatro na liturgia cristã não impede deste ser utilizado, já que o mesmo não fala também de instrumentos musicais na adoração cristã de então e eles são utilizados na adoração cristã de hoje. No Novo Testamento há espaço para qualquer expressão litúrgica desde que haja decência e ordem (1Coríntios 14.40).

Tendo em vista o acima dissertado, o teatro tem sim o seu espaço na igreja cristã de hoje como expressão de adoração, edificação e estratégia evangelística. Tal uso pressupõe não apenas a vontade de interpretar, mas também aptidão técnica, trabalho em equipe, aprovação e supervisão pastoral, ou seja, a utilização contínua do teatro na igreja deve ser organizada como um ministério da igreja. 

Quando dizemos "deve" não é no sentido de ser "obrigatório", mas no sentido de que uma comunidade de fé que pretenda fazer um uso contínuo desse dom a serviço do Reino necessita organizá-lo com líderes, supervisão, adequação de agendas, capacitação técnica e espiritual.  Cada comunidade de fé conhece suas necessidades.

Cristo, na Grande Comissão, nos mandou pregar o Evangelho e fizer discípulos (Marcos 16.9-11; Mateus 28.18-20). O uso ministerial do teatro é uma ferramenta, não obrigatória, não a mais importante, mas de grande valia para cumprir a missão que o Mestre nos deixou. 

Pude vivenciar isso em 13 anos (1999-2012) que participei como ator, autor e diretor do grupo teatral do MAVIN (Ministério de Artes Vida Nova) do Projeto Vida Nova de Irajá.

Sou grato a Deus por esses preciosos anos onde vi e vivi a arte a serviço do Reino.


REFERÊNCIAS
HARRISON, R. K. Levítico: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, Mundo Cristão, 1983.
HOUAISS, Antonio. Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. Versão 1.0 (CD-ROM), Objetiva, 2001.
LOURO, Fabiana. A Origem e Evolução do Teatro. Disponível em: http://liriah.teatro.vilabol.uol.com.br/historia/aorigemeevolucaodoteatro.htm
NOLAND, Rory. O Coração do Artista: construindo o caráter do artista cristão. São Paulo : W4 Editora, 2007.
PETERVELITZ, Luciano R. Introdução ao Profetismo. In: Revista Theos. 5 ed. Vol. 4. Nº 1. Campinas: Faculdade Teológica Batista de Campina, 2008. Disponível em: www.revistatheos.com.br/Artigos/Artigo_05_02.pdf
SCHROER, Silvia; STAUBLI, Thomas. Simbolismo do Corpo na Bíblia. São Paulo: Paulinas, 2003.

domingo, 15 de julho de 2012

ARTISTA: CONSCIÊNCIA DE LIDERANÇA NA ADORAÇÃO

A Bíblia com frequência mostra artistas liderando a adoração do povo de Deus. Um exemplo marcante é o episódio narrado no capítulo 20 do Segundo Livro das Crônicas, quando o rei de Judá, Josafá, enfrenta seus inimigos pondo a frente do exército um grupo de músicos: "Aconselhou-se com o povo e ordenou cantores para o SENHOR, que, vestidos de ornamentos sagrados e marchando à frente do exército, louvassem a Deus, dizendo: Rendei graças ao SENHOR, porque a sua misericórdia dura para sempre. Tendo eles começado a cantar e a dar louvores, pôs o SENHOR emboscadas contra os filhos de Amom e de Moabe e os do monte Seir que vieram contra Judá, e foram desbaratados", 2Crônicas 20.21,22. Abaixo, representação do triunfo de Josafá sobre os amonitas e moabitas atribuída a Frans Boels (falecido em 1594).
Outro exemplo está registrado no Salomo.68.25: "Os cantores iam adiante, atrás, os tocadores de instrumentos de cordas, em meio às donzelas com adufes". Vemos cantores, instrumentistas e dançarinas (no contexto cultural do texto, as donzelas com adufes dançavam) liderando a adoração do povo de Deus. É comum pensar que apenas aquele irmão que chamamos de "dirigente de louvor" conduza o povo de Deus em sua adoração. Porém, todo artista que contribui para a adoração do povo de Deus é um condutor de adoração.Como diz o ministro de música e escritor Rory Noland: "Se você canta, toca, escreve, pinta, atua, dança, faz mixagem de som, projeta a letra das músicas ou é responsável pela iluminação, faz um solo ou canta no coral, dirige o louvo à frente do auditório ou trabalha "nos bastidores", saiba que a congregação segue sua liderança. Portanto, você é um líder de adoração - ou, para usar a expressão que muitos estão empregando hoje, você é um 'adorador líder' "[1] Sendo assim, nós que trabalhamos com arte na igreja, seja ela musical ou cênica, ou ainda na chamada "produção" dos bastidores (som, iluminação, maquiagem, etc.), damos um considerável contribuição à qualidade da adoração coletiva e individual do povo de Deus. Isso requer de nós consciência da importância do que fazemos, para que façamos o melhor espiritual e tecnicamente. 
 Notas 
[1] NOLAND, Rory. O Artista Adorador: Uma exposição da mente e do coração do artista. São Paulo: Editora vida, 2008, p.14.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O ARTISTA NA BÍBLIA: BREVES LIÇÕES

A palavra ‘artista’ na Bíblia aparece apenas no Antigo Testamento e está ligada à tradução da forma verbal da palavra chashab que quer dizer ‘planejar, inventar, considerar’ e tem o sentido de alguém que planeja, executa, faz alguma obra em específico. Ela aparece principalmente no livro do Êxodo quando da revelação, planejamento e construção do Tabernáculo (Êx 26.1, 31; 36.8,35). No livro de Cantares (7:1) aparece a palavra ’aman que significa ‘trabalhador capacitado, artista, pessoa capacitada, artesão’. A Bíblia mostra que a arte acompanha o Homem desde o princípio de sua história (Gn 4.19-22). Destacamos aqui a Jubal que foi “foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta” (v.21). Vemos assim uma expressão artística (a Música) no início da Escritura Sagrada. E a música primitiva não era apenas para ser ouvida, mas também cantada e dançada como demonstram vários achados arqueológicos. Assim, na arte de Jubal, além da música, está implícita a dança. Infelizmente, a arte também foi usada para a idolatria (Atos 17:29). A Arte deve ser vivida no contexto da Cidade Celeste não da Babilônia decaída (Ap 18:22). 
O primeiro tipo de pessoa a que a Bíblia se refere como sendo cheio do Espírito Santo, não é um profeta, nem um rei nem um sacerdote, mas é um artista:

Bezalel por James Tissot
“Disse mais o SENHOR a Moisés: Eis que chamei pelo nome a Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o enchi do Espírito de Deus, de habilidade, de inteligência e de conhecimento, em todo artifício, para elaborar desenhos e trabalhar em ouro, em prata, em bronze, para lapidação de pedras de engaste, para entalho de madeira, para toda sorte de lavores. Eis que lhe dei por companheiro Aoliabe, filho de Aisamaque, da tribo de Dã; e dei habilidade a todos os homens hábeis, para que me façam tudo o que tenho ordenado: a tenda da congregação, e a arca do Testemunho, e o propiciatório que está por cima dela, e todos os pertences da tenda; e a mesa com os seus utensílios, e o candelabro de ouro puro com todos os seus utensílios, e o altar do incenso; e o altar do holocausto com todos os seus utensílios e a bacia com seu suporte; e as vestes finamente tecidas, e as vestes sagradas do sacerdote Arão, e as vestes de seus filhos, para oficiarem como sacerdotes; e o óleo da unção e o incenso aromático para o santuário; eles farão tudo segundo tenho ordenado” (Ex 31.1-11)

Do texto bíblico aprendemos os seguintes princípios:
 - Deus usa a arte para cumprir seus propósitos;
- O artista é alguém chamado por Deus;
- Ele deve ter companheiros;
- Ele trabalha segundo a revelação de Deus e o modelo mostrado a liderança (Êx 25:8,9).
O tabernáculo de Moisés é um testemunho de que arte e adoração podem se combinar
 Além da unção deve o artista ter preparo técnico: “Entoai-lhe novo cântico, tangei com arte e com júbilo”, Salmos 33:3. O salmista não apenas se ajoelhava e orava dizendo: “Daí-me um salmo, ó Senhor!”. Ele era alguém que contemplava a natureza (Sl 8), conhecia as Escrituras (Sl 119), via as dificuldades e contradições da vida e meditavas nela à luz de Deus (Sl 73). “De boas palavras transborda o meu coração. Ao Rei consagro o que compus; a minha língua é como a pena de habilidoso escritor”, Salmos 45:1. Habilidoso é no original hebraico mahir ‘veloz, rápido, habilidoso, pronto’. "Procurou o Pregador achar palavras agradáveis e escrever com retidão palavras de verdade. As palavras dos sábios são como aguilhões, e como pregos bem fixados as sentenças coligidas, dadas pelo único Pastor”, Eclesiastes 12:10,11. O Pregador não buscou apenas orar; ele buscou quais seriam as melhores palavras para expressar a inspiração divina que lhe corria no coração. Pesquisou as palavras de outros sábios, de outros especialistas de sua área, para produzir sua arte. 
Portanto, a unção, companheirismo e o preparo técnico devem andar juntos. Esse é o artista bíblico.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

O QUE É ARTE?

A arte [1] é o produto ou processo de deliberadamente organizar itens (muitas vezes com significado simbólico) de uma forma que influencia e afeta um ou mais dos sentidos, emoções e intelecto. Ela abrange uma ampla gama de atividades humanas, criações, e modos de expressão, incluindo a música, literatura, cinema, fotografia, escultura e pintura. O significado da arte é explorado em um ramo da filosofia conhecido como a Estética, e até disciplinas como História e Psicologia analisam sua relação com os seres humanos e suas gerações. Tradicionalmente, o termo ‘arte’ foi utilizado para se referir a qualquer perícia ou maestria. Assim dizemos: a arte de amar, a arte de cozinhar, a arte da guerra, etc. Esta concepção mudou durante o período romântico (final do século XVIII), quando a arte passou a ser vista como uma faculdade especial da mente humana para ser classificada entre outras como a religião e ciência. Geralmente, a arte é feita com a intenção de estimular pensamentos e emoções.
O pensador cristão Francis A. Schaeffer (1912-1984) afirma em A Arte e a Bíblia que a arte é inerente à criatividade humana, portanto, é próprio e natural do ser humano fazer arte. Acima, no sentido horário a partir da esquerda: Um auto-retrato do pintor holandês Vincent van Gogh (1853-1890), uma estátua da tribo africana Chokwe, um detalhe do quadro Nascimento de Vênus do italiano Sandro Botticelli (1445-1510) e um leão shisa japonês [2]. A arte é uma manifestação da natureza humana em todas as épocas, povos e lugares.

Qual é o valor da Arte? 
Richard Wollheim
O filósofo Richard Wollheim (1923-2003) distingue três abordagens para a avaliação do valor estético da arte: 
1) A realista, em que a qualidade estética é um valor absoluto, independente de qualquer ponto de vista humano; 
2) A objetivista, pela qual também é um valor absoluto, mas é dependente da experiência humana em geral; 
3) A posição relativista, na qual a arte não tem um valor absoluto, mas depende da a experiência humana dos seres humanos diferentes e varia de acordo com ela. 
Aristóteles
Um objeto pode ser caracterizado pelas intenções, ou a falta delas, do seu criador, independentemente de sua propósito aparente. Uma xícara, que aparentemente pode ser usada como um recipiente, pode ser considerada arte se destina-se unicamente como ornamento, enquanto que uma pintura pode ser considerado arte, ainda que produzida em série. Em sua obra The Art and its Objects, a natureza da arte tem sido descrita por Wollheim como um dos mais elusivos problemas tradicionais da cultura humana. A arte tem sido definida como um veículo para a expressão ou a comunicação de emoções e idéias, um meio para explorar e apreciar os elementos formais por seu próprio fim, e como mimesis ou representação. O célebre escritor russo Leão Tolstói (1828-1910) identificou a arte como a utilização de meios indiretos para uma pessoa se comunicar com outra. O crítico e filósofo italiano Benedetto Croce (1866-1952) e o filósofo e historiador britânico R. G. Collingwood (1889-1943) concebiam a visão idealista de que a arte exprime emoções, e que a obra de arte, portanto, essencialmente existe na mente do criador. A teoria da arte como forma tem suas raízes na filosofia de Immanuel Kant (1724-1804), e foi desenvolvida no início do século XX pelos críticos ingleses Roger Fry (1866-1934) e Clive Bell (1881-1964). A arte como mimesis ou representação tem raízes profundas na filosofia de Aristóteles (384-322 a.C.). Mais recentemente, pensadores influenciados por Martin Heidegger (1889-1976) interpretaram a arte como o meio pelo qual uma comunidade se desenvolve por si só; um meio de auto-expressão e interpretação. Francis A. Schaeffer em seu já citado A Arte e a Bíblia advoga que a obra de arte tem valor em si mesma, pois é fruto da criatividade humana. Embora o resultado dessa criatividade deva ser criticamente avaliado, podendo até ser rejeitado, a criatividade em si é algo bom, reflexo da imagem de Deus no ser humano.

O Que é Arte?
Theodor Adorno
 A Enciclopédia Britânica Online define a arte como "o uso da habilidade e da imaginação na criação de objetos estéticos, ambientes ou experiências que podem ser compartilhados com outras pessoas." Por esta definição da palavra, as obras artísticas têm existido por quase tanto tempo quanto a humanidade: desde a primeva arte pré-histórica até a arte contemporânea; no entanto, algumas teorias restringem o conceito às modernas sociedades ocidentais. O filósofo e musicólogo Theodor W. Adorno (1903-1969) afirmou na obra Teoria Estética (1970) que um fato certo é que nada do que diz respeito a arte pode ser tido como certo: nem a própria arte, nem arte em relação ao todo, nem sequer o direito da arte de existir. O sentido mais amplo e antes de arte é aquele que tem permanecido mais próximo à antiga acepção latina (ars) que indica a arte como a "habilidade" ou "técnica". Alguns exemplos onde este significado é testemunhado amplamente estão nas palavras: artefato, artificial, artifício, artesão, artesanato e nas expressões artes médicas, artes militares, artes ninjas, etc. que presumem primeiramente o domínio de habilidades específicas antes que a estética. No entanto, existem muitos outros usos coloquiais da palavra arte, todos com alguma relação com a sua etimologia. Então, inicialmente, pode-se definir a arte como domínio e expressão técnica em qualquer campo de atividade ou conhecimento.
Estátua de bronze de um pugilista descansando 
(seculo III d.C.): O pugilismo ("boxe") é uma arte?
O segundo e mais recente sentido da palavra arte é um termo abreviativo para arte criativa ou belas artes. Belas artes significam que uma habilidade está sendo usada para expressar a criatividade do artista ou tocar significativamente as sensibilidades estéticas do público, ou ainda para chamar a atenção do público para considerar as coisas belas. Muitas vezes, se a habilidade está sendo usada em uma maneira comum ou prática, as pessoas vão considerá-lo um ofício ao invés de arte. Da mesma forma, se a habilidade está sendo usada em uma forma comercial ou industrial, será considerada como arte comercial, em vez de arte. Por outro lado, o artesanato e o design, por vezes são considerados artes aplicadas. Alguns críticos de arte têm argumentado que a diferença entre arte e arte aplicada tem mais a ver com juízos de valor feitos sobre a arte do que qualquer definição clara e prática de diferença. No entanto, mesmo a bela arte, muitas vezes tem objetivos para além da pura criatividade e auto-expressão. O propósito das obras de arte pode ser para comunicar idéias, tais como as artes motivadas espiritual, filosófica ou politicamente; ou ainda para criar um senso de beleza; para explorar a natureza da percepção, por prazer, ou para gerar fortes emoções. O objetivo também pode ser aparentemente inexistente.
Vaso do século XX de Ruanda, África:
 Trabalhos artísticos podem ter funções práticas, além de seu valor decorativo.
A palavra arte pode descrever várias coisas: um estudo da habilidade criativa, um processo do uso da habilidade criativa, um produto da habilidade criativa, ou a experiência do público com a habilidade criativa. As artes criativas (arte como disciplina) são um conjunto de disciplinas (artes) que produzem obras de arte (arte como objetos) que são compelidas por uma direção pessoal (a arte como atividade) e ecoam ou refletem uma mensagem, humor ou o simbolismo para o espectador interpretar (a arte como experiência). Obras de arte podem ser definidas por propósitos, interpretações criativas ilimitadas de conceitos ou idéias, a fim de comunicar algo para outra pessoa. Obras de arte podem ser feitas explicitamente para esse fim ou interpretadas com base em imagens ou objetos. A arte é algo que estimula no indivíduo pensamentos, emoções, crenças ou idéias através dos sentidos. É também uma expressão de uma idéia e pode assumir muitas formas diferentes e servem para muitos propósitos diferentes. Embora a aplicação do conhecimento científico para derivar uma nova teoria científica envolva habilidade e resulte na "criação" de algo novo, isso representa apenas a Ciência e não é classificado como Arte. 

 O Que é Arte Afinal? 
Do acima dissertado, podemos definir a arte como a alma humana em atividade técnica para criar e expressar o belo, o bom e o útil. A definição do que é belo, útil e bom vai variar não só de povo para povo, de cultura para cultura, mas de indivíduo para indivíduo. Independente dos gostos e critérios, a criatividade humana para o belo, o bom e o útil é a essência do que é arte. 

 NOTAS 
[1] A maior parte do presente texto é tradução e adaptação do artigo Art da versão inglesa da Wikipédia, a enciclopédia livre http://en.wikipedia.org/wiki/Art. 
[2] Shisa: "um leão ou dragão de origem chinesa, usado como um amuleto ou carranca, na província de Okinawa, ao extremo sul do Japão." Ver: http://pt.wikipedia.org/wiki/Shisa

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A ARTE E DEUS

A palavra portuguesa 'arte' vem do latim ars, artis que significa 'maneira de ser ou de agir, habilidade natural ou adquirida, arte, conhecimento técnico'. A palavra 'arte' também é sinônima da palavra 'técnica', pois também designa o que é da atividade humana, ofício, instrução, conhecimento, saber, profissão, destreza, perícia, ou seja habilidades adquiridas em oposição às habilidades naturais. Para além dessa acepção técnica, a arte tem uma acepção ligada a estética, a busca pelo belo, pelo que causa sensação, deleite, prazer, independente de fins meramente utilitários. Valores estéticos dizem respeito à beleza, à harmonia, ao equilíbrio, à sintonia de cores, formas, expressões, movimentos, etc.
Desde seus primórdios, o ser humano criou objetos para atender as suas necessidades práticas, como armas de caça, ferramentas para cavar o solo e utensílios de cozinha. Outros objetos foram criados para expressar suas crenças (amuletos, estátuas) e pertinência (pinturas ou tatuagens) ou pelo simples prazer inerente ao ser humano de criar algo. Da fabricação de objetos passa-se a ritualizar as crenças, emoções, passagens da vida através de liturgias, danças e representações dramáticas. A partir da vida, o ser humano procura expressar o que pensa, estimular e entreter a si mesmo e a outros, experimentando e descobrindo novas formas de olhar e interpretar objetos, emoções e cenas da vida. No Antigo Egito a arte foi plenamente usada para exprimir crenças através da liturgia, da arquitetura e da pintura.

Funeral de um Gato (1886) por John Weguelin (1849-1927)

Através do comércio, da exploração, do intercâmbio, os povos propagaram suas obras artísticas entre outros povos, recebendo influências uns dos outros. Os progressos na tecnologia ajudaram a elaborar e difundir novas técnicas e teorias. Sendo assim a arte se faz presente na história e na vida humana; mesmo naqueles que dizem que não são especialistas em arte. Quem não se emocionou com um filme? Ou música? Quem não admirou um quadro, uma escultura? Quem não se vislumbrou com uma peça coreográfica ou de teatro? Mesmo que se desconheçam os termos técnicos, os estilos, os autores, as manifestações artísticas causam seu impacto sendo veículos poderosíssimos de expressão e comunicação. A arte pode ser naturalista (espelha o mundo), utilitária (auxilia a vida diária), decorativa (embelezadora), terapêutica (curativa), didática (educativa), enfim, a arte é a alma humana em atividade para criar o bom, o útil e o agradável.
O artista Martin Duffy esculpindo Kirsty
Qual é a relação da arte com Deus? João Calvino (1509-1564), célebre teólogo da Reforma Protestante, dizia que “todas as artes vêm de Deus e devem ser consideradas como invenções divinas”. Deus é o criador de tudo, inclusive da arte, sendo ele mesmo o artista supremo. Assim como artista humano busca em sua obra os valores estéticos da beleza, da harmonia, assim é Deus; após criar o mundo “viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gn 1.31). A palavra ‘bom’ no texto original hebraico é tov que designa dentre outras coisas aquilo que é bom, excelente, agradável aos sentidos, qualidades buscadas por todo artista. A obra artística humana revela algo sobre seu autor: sua espiritualidade, sua genialidade, sua moralidade… Da mesma forma as obras de Deus nos revelam algo sobre ele: “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Rm 1.20; ver também Sl 19.1). A Bíblia fala que nós somos feitura dele (Ef 2.17). No texto original grego a palavra ‘feitura’ é a palavra poiema de onde vem a palavra ‘poema’. Sendo assim, podemos dizer que Deus é um poeta e nós somos sua poesia. A natureza, obra artística de Deus, aponta para a excelência de seu Criador.

O pico  Dedo de Deus em Guapi-Mirim (RJ): A natureza aponta para seu Criador

Nos tratados de Teologia se estudam os atributos de Deus: santidade, amor, onisciência, justiça… deveria ser incluído nesses estudos que um dos atributos de Deus é a arte: Deus é santo; Deus é justo; Deus é bom; Deus é artista. Não é sem razão que a Bíblia é repleta de referências ao trabalho artístico sendo ela mesma a obra de arte por excelência que inspirou e inspira todas as artes: a literatura, a música, a pintura, a escultura, a dança, etc. Ignorar ou desprestigiar o caráter artístico de Deus é conhecê-lo menos.